árvore frondosa.
Perder tudo por um segundo. E no segundo seguinte tudo será de novo, com toda a dor que funda embriaguez gaiola de vidro. Os dias são somente dias, somatória de dias, e quando descansamos percebemos o quanto tudo foi insano e que realmente, verdadeiramente, não poderia ter sido de outro modo.
Há algo, sim, dentro de você, capaz de desaguar, mesmo que a força seja mais pálida. Eu sempre tive uma vontade imensa e lunar de dizer tudo. Mas sempre tive medo do ponto final. O que mais me assusta hoje em dia é a expectativa, de qualquer coisa que seja.
Pelo menos o que é velho em mim tem um contorno e eu descanso nesse contorno e daí que ele não é acabado? Quem é acabado? Somos todos uma junção de pele, dentes, frases interrompidas, infância, somos todos uma junção de fragmentos que jamais irão se juntar.
Mesmo meu intelecto sofre mutações constantes eu não sei mais no que acredito e já sinto saudade de quando eu era humanista sem saber se realmente deixei de sê-lo. Pois todas as vezes em que a realidade me mostrou suas veias mutiladas e seus vermes eu sempre achei que havia algo em mim mais forte capaz de vencer as adversidades com minhas convicções, minhas armas sempre foram minhas convicções, e quando penso nisso a palavra balela escorre de dentro de alguma cratera que fui cultivando sem perceber.
Quando me dizem que essa é a realidade, e que o mundo é assim, não deixo de pensar que um dia fui uma menina de quatorze anos que queria ser anarquista, e qual é a grama de poeira disso tudo que fica em nós? E tudo o que acontece de absolutamente revolucionário dentro do meu ser está encerrado num silêncio que é o silêncio que faz nascer um mundo novo e deus me livre ser alguma coisa nova revestida do velho.
Atendendo a pedidos!!!
No dia 22 de fevereiro escrevi um texto apresentando o meu “quadro médico” e refletindo a respeito. Só para constar, adoeci novamente, mas esse não será o tema deste texto. Hoje me deparei com um comentário feito pelos meus grandes e amados amigos, Leila e Uashington, mais conhecido por WDC. Reproduzo aqui:
“Legal, mas quando você vai atualizar e falar sobre coisas boas? Tipo os seus amigos. Beijos.”
Leila e WDC
Isso me fez pensar: por que não falo sobre meus amigos? Sobre esses dois amigos, particularmente? Sobre a maneira como me sinto feliz perto deles? Sobre seus belíssimos gestos de amizade e carinho?
Pois bem, falarei deles. E tentarei, na medida do possível, ser sintética, pois o que tenho pra dizer daria um livro. Não se trata, aqui, de “rasgação de seda”, e sim de um relato sincero e emocional sobre a nossa amizade. Pra quem não sabe, nos conhecemos na ONG onde eu trabalhei, o Projeto Arrastão. E, mesmo que eu tenha saído de lá em abril do ano passado, nossa amizade vingou, o tipo de amizade que não precisa de um espaço ou um convívio diário para florescer, e se estabelecer. Nos vemos com uma certa freqüência, que não é ideal, afinal de contas temos que cumprir rotinas e horários. Em todos os encontros, rimos, reclamamos da vida, fazemos projetos. Uns não se concretizaram, outros estão germinando. Mas o mais importante é que estamos atentos à vida um do outro.
O que eu queria dizer, na verdade, sobre essas duas pessoas especiais, é que coloriram minha vida em momentos importantíssimos. Quando fui demitida, estava atirada no sofá, curtindo uma fossa, quando eles surpreendentemente apareceram e me presentearam com um quadro lindíssimo e uma cartinha que continha várias das frases que eu costumava dizer.
Em outro momento, comentei com a Leila que gostaria de pintar. De brincadeira, pra ver o que acontece. E então ela me aparece com duas telas, tintas, pincéis, rolinhos. Esses são alguns exemplos das coisas surpreendentes e marcantes que eles fazem, só porque são assim mesmo, intensos, especiais, leais.
E o mais incrível é que apenas a companhia deles me revigora. Desenvolvemos, ao longo do tempo, uma capacidade maravilhosa de rirmos de nossas desgraças, de debocharmos do mundo, de sermos, de certa maneira, marginais, subversivos, céticos, ranzinzas, bregas, alegres, e até mesmo melancólicos. Às vezes, nos sentamos num bar e vemos as horas passarem ao compartilharmos nossas afinidades e divergências e, muitas vezes, só de pirraça, ficamos disputando pelo nosso ponto de vista, tentando convencer o outro inutilmente, exatamente como os amigos fazem.
O que me encanta neles é a maneira como encaram a vida. Basta um gesto cômico do WDC, que é palhaço profissional, pra que eu esqueça minhas preocupações e tristezas. E basta lembrar da Leila rodopiando pela sala de casa, ouvindo a trilha sonora do filme O fabuloso destino de Amélie Poulain, pra que eu me sinta invadida por uma brisa fresca que reconstrói meus desertos interiores.
|
|
||||
|
||||
|
|
||||
|
||||