DESAVISADO
E a sua alma esqueceu de avisar que ele estava todo espremido.
Que o seu sangue estava ralo, e que no fim do dia ele não se sentia abençoado pelo Deus trabalho.
Que quando explodiam muitas perguntas em sua cabeça, seu coração não funcionava direito.
Que ter naturalizado o sofrimento não era, de jeito nenhum, uma maneira de sofrer menos.
Que desejar era tão perigoso quanto ter uma arma de fogo numa gaveta ao lado da cama.
Que admitir a existência do Diabo era dar corpo, voz e sangue ao exército invisível de suas renúncias.
Que no lugar onde a lacuna paria, nascia também uma possível beleza.
Que onde o possível dormia, a besta da aurora aliciava tudo e tudo tornava a ser vivo.
Que o passado era um amontoado de exclamações, e que por isso faziam do futuro um ponto final.
Que lutar é um reflexo.
Que vencer é sorte.
Que existir é mero acaso.
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