Tudo aquilo que se ignora
O que vou contar aconteceu na terça-feira passada. O que importa, na verdade, é que ACONTECEU. Num primeiro momento, fiquei anestesiada, sem refletir profundamente sobre o ocorrido e seus desdobramentos. Reflito agora:
Sou professora de Sociologia de 9 classes de Ensino Médio Regular 8 salas de Educação de Jovens e Adultos. De acordo com o cronograma estabelecido pela Secretaria Estadual da Educação, o tema a ser desenvolvido nas 3º séries do Ensino Médio Regular é a Cidadania. E lá estava eu, falando de direitos sociais, civis, políticos e humanos. Ao falar dos direitos humanos, mencionei a prisão de Guantánamo e os abusos cometidos pelos soldados norte-americanos contra os presos políticos. Eles me olhavam como se eu fosse um ET vindo de uma galáxia muito, muito distante, e estivesse fazendo uma descrição detalhada do meu planeta em outra língua.
Pausa atônita: “Vocês sabem que os EUA invadiram e ocuparam o Afeganistão?”
A resposta foi em uníssono:
“Não!!!”
“Vocês sabem que em 2001 os EUA sofreram um ataque terrorista?”
“Não.”
“Como assim? O ataque às Torres Gêmeas, quando dois aviões bateram em dois prédios imensos, e aproximadamente seis mil pessoas morreram.” (Fiz desenhos na lousa, um tanto desesperada, mas esperançosa, achando que com os desenhos eles se lembrariam.) E a resposta foi:
“Não.”
Respiro fundo. Algumas vezes. Não consigo transpor a minha perplexidade para dar prosseguimento à aula. Então respiro mais uma vez e conto toda a história, temendo, de antemão, que minha explicação logo caísse no esquecimento.
Então me debato em dilemas pedagógicos, sociológicos e existenciais. Desde o início deste ano, quando iniciei as aulas de Sociologia, tenho feito um intenso exercício de adaptação das minhas expectativas à realidade. E a minha realidade não é muito animadora: oito aulas por bimestre, uma vez por semana, durante 50 minutos, que nunca são realmente 50 minutos, pois devemos descontar o tempo que se gasta em ocorrências que envolvem a rotina das escolas. Então surgem perguntas inevitáveis: “de que maneira pretendo, ou como é que imaginei que, num tempo tão curto, eu seria capaz de preencher as lacunas de tudo aquilo que eles ignoram? Como é que eu poderia sustentar a minha crença numa concepção de educação fundamentada no positivismo, achando que, por meio do conhecimento, do domínio de determinados saberes direcionados pela ciência e pela produção intelectual da sociedade ocidental, a emancipação humana seria possível?
E então outras perguntas mais complexas reluzem: o que realmente interessa ao aluno? Quais conhecimentos eles precisam dominar, e para quê? Para entrar no mercado de trabalho, para a vida, para a conscientização social e política? Educamos para quê? Educamos quem e para quê?
Certamente tudo isso dá pano pra manga, e são discussões que deveriam, por motivos óbvios, fazer parte da rotina de todos os educadores, individual ou coletivamente. Mas o que me deixa triste é constatar a quantidade de fatos, coisas, relações e produções artísticas que os alunos, de maneira geral, ignoram. Ignora-se quem manda no mundo e quem sofre com isso. Ignora-se a beleza de um bom romance. Ignora-se a transformação interna que um filme instigante pode causar. Ignora-se, ignora-se, ignora-se.
Muitos ignoram a força que a possibilidade fomenta. Sergio Vaz, poeta e fundador de um movimento cultural chamado Sarau Cooperifa, costuma dizer uma frase muito importante: “É tudo nosso.” Diante do que relatei, talvez o único pecado seja ignorar a verdade que reside nesta frase.
Em resumo
Existem 14 milhões de analfabetos no Brasil!!!
Preciso dizer mais alguma coisa?
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