Uma coisa triste
Dentre todas as coisas tristes e deprimentes que envolvem a relação professor-aluno, talvez a pior de todas seja o fato de que os alunos não aprendem. Meus relatos têm como fundamento fragmentos de percepções deste universo, são como uma lupa colocada em cima de um fato, portanto, nada de generalizações.
O fato ocorreu na sala dos professores. Um dos meus colegas de profissão, reclamão de tudo, resolveu corrigir os trabalhos dos alunos, tirando de dentro dos diários um calhamaço. Como deveria ter reunião pedagógica, mas não teve (por quê? Porque não teve), resolvi ler o jornal. E, por acaso, olhei para o professor, e meus olhos ficaram imensos quando vi o que vi: ELE NÃO ESTAVA CORRIGINDO OS TRABALHOS! Sua correção era dar uma olhadinha rápida e atribuir uma nota qualquer (com que critérios, meu Deus?!). Discretamente, passei a observar o fenômeno com mais atenção. Pois a certeza foi plantada num lugar dentro de mim onde deveria nascer indignação, mas nasceu tristeza. Tristeza por causa do desleixo, do descaso, da indiferença, da preguiça. Todos aqueles alunos fizeram um esforço e merecem saber se o trabalho está certo. Merecem que os erros gramaticais sejam corrigidos, e que aprendam a fazer uma pesquisa.
Geralmente, não peço trabalhos, pois tenho receio de que esta forma de avaliação seja apenas um “tapa buraco”, e não uma avaliação efetiva, justamente porque os alunos copiam e colam o assunto de uma fonte qualquer e não dão a menor coerência ao texto.
Um dia, meus alunos propuseram uma pesquisa de um assunto que eu estava passando na lousa. Recebi diversos textos sem pé nem cabeça. Um deles certamente era um pedaço de uma dissertação, pois era bem elaborado, inclusive com análises sociológicas de Hannah Arendt. Após ler o texto todo (sim, eu “perco o meu tempo”), escrevi um comentário relativamente grande ao meu aluno, dizendo, principalmente, que era necessário compreender o que estava escrito ali. Aproveitei a oportunidade para elaborar uma aula cujo título é: “Como fazer uma pesquisa?”
Não estou querendo dizer com isso que sou a professora nota 10 rodeada de incompetentes. Estou dizendo, simplesmente, que entrei nesta batalha pra valer, e que isso significa debruçar-se em cima daquilo que o aluno apresenta e orientá-lo. Claro que, às vezes, desanimo quando tenho um grande volume de redações para corrigir. Mas passar os olhos e dar uma nota??? Fingir que ensina enquanto o outro finge que aprende, agravando profundamente o quadro desolador da educação?
Provavelmente, em sua estratégia algo criminosa, o professor pense que com isso ganhará tempo. O mesmo tempo que vai gastar lutando para que sua consciência não o atormente.
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