Desabrochar
Desabrochar é indecente. Acreditem. A indecência de uma rosa desabrochada é ofuscada pela sua beleza. Por isso, ninguém percebe. Mas por que é indecente? Porque quando algo ou alguém desabrocha, revela a sua verdade de maneira puramente espontânea.
Creio que somente os bebês possuem uma pureza espontânea em seu contato com o mundo. O que mais me impressiona neles é o olhar. Ávido ao ponto de parecer voraz. Tudo é absorvido, e as coisas são retidas pelos seus olhos até perderem o interesse, que pode ser retomado a qualquer momento, com a mesma intensidade.
Faz parte do processo de socializar-se que nos tornemos mais contidos e enquadrados. Aprendemos a ser educados, polidos, adaptáveis. Um ser para o trabalho, um ser para o amor, um ser para os amigos no bar. Não sei até que ponto isso é um problema. Creio que existe um problema quando passamos a viver e nos moldar inteiramente para o outro. Quando outro ser tiraniza nossos passos, nossos anseios e impulsos. Aí nos retraímos, perdemos a beleza, nossas pétalas murcham.
E somente a auto descoberta pode ocasionar o desabrochar, quando um ser novo nasce de dentro do “velho”, do moldado. Então é a vez da nudez, confusa, distorcida, assimétrica, hesitante. Sem embalagem, sem barganhas. Quem somos de fato. E esse quem somos de fato precisa aprender a movimentar-se neste mundo, mesmo que deva, de início, tatear. Avançar e recuar, tentar e errar e tentar e errar. E acertar. Talvez neste processo exista, efetivamente, a possibilidade dos adultos voltarem a brincar. Brincamos ao vestirmos uma roupa inteiramente diferente, ao contarmos uma piada para algum ser carrancudo, ao beijarmos displicentemente o rosto do nosso medo quando ele estiver distraído. Nisto existe uma reinvenção que não possui regras, objetivos e formas. Pois a cada passo, a cada “brincadeira”, vamos solidificando em nossa alma o que realmente vale a pena, até reaprendermos a sorrir como uma criança.
Voltando a elas, meu ser se derrete inteiro ao ver o sorriso do meu sobrinho Lucca, que está com 9 meses. Pois não há nada ruim e triste que não possa ser dissolvido com o som de suas gargalhadas.
“I’m your man!”
Todas as vezes em que estou de férias, ocorre um fenômeno esquisito: troco a noite pelo dia. Vou dormir às 6 da manhã para acordar às 13:00h. Neste meio de ano, minhas férias foram prolongadas (por causa da gripe suína), então tive duas semanas de agosto para dormir um pouco antes do sol nascer. Quando não engato na escrita da minha dissertação, o que faço geralmente de dia, preencho estas noites assistindo filmes, ou lendo. Eis que nesta noite fui presenteada com uma grande surpresa: um filme em homenagem ao cantor canadense Leonard Cohen, chamado “I’m your man”, que também é título de uma de suas músicas.
Fiquei fascinada por ele há uns meses atrás, quando o “descobri” por meio uma banda francesa que gosto muito, Noir Désir. Eles cantam juntos uma música muito bonita chamada The Partisan. Mas hoje, ao assistir a este filme, percebi que já o conhecia, que ele estava arquivado em minha “memória musical”, principalmente pelo fato dele ter se tornado monge na década de 90, e de sua música, Aleluia, ter ficado muito famosa.
Sua voz parece um trovão, num misto de sensualidade e força poética. A princípio, não é preciso saber a tradução das músicas para gostar, basta ouvir sua linda e poderosa voz. Mas, ao acompanhar a legenda durante o filme, fiquei encantada com a beleza e a profundidade das letras, e de ter descoberto, também, que durante um tempo ele foi poeta e escritor. Aliás, tem um livro dele cujo título em inglês é “Beautiful Loosers”. Não sei se foi traduzido para o português, mas não tenho dúvidas de que vou atrás. Suas canções têm a capacidade de inundar um ambiente de luz, como poucos cantores conseguem fazer. No meu caso, existem músicas que me deixam alegremente “drogada”, ou introspectiva e melancólica, mas, quando o ouço, sinto que, se há algum vestígio de solidão dentro de mim, são varridos pelos seus trovões poéticos.
Recomendo. Muitíssimo. O filme exibe depoimentos seus sobre fases de sua vida, intercalados a um tributo prestado por alguns cantores (confesso que muitos eu não conheço), mas, entre eles, está Anthony, vocalista de uma banda que também adoro chamada Anthony and the Johnsons, e o U2, e ambas as participações são primorosas.
Amanhã tudo começa novamente. Acabaram as férias, e não há como não nos preocuparmos com o que nos rodeia, como esta gripe, o senado e suas falcatruas, o preço das coisas e a insignificância da nossa cidadania. Mas depois deste filme, me sinto renovada, revitalizada por pura poesia, e por isso pronta para mais uma batalha.
* Pra quem tem TV a cabo, este filme está em cartaz no Telecine Cult. É só ficar de olho!!!
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