O mundo nos adoece
Debilitada por causa de uma gripe, ontem fui atendida por uma médica que me dá atestado de apenas um dia e me diz que, se for gripe suína, eu posso dar aulas, pois na sua opinião é preciso que as pessoas tenham contato com o vírus para criar imunidade, e se alguém for contaminado e morrer, morreu, fazer o quê? Aliás, disse ela, o número de mortes é pequeno, comparado às grandes epidemias de gripe que já assolaram a humanidade. Pois esta profissional não se importa nem um pouco com o fato de que uma professora gripada pode disseminar o pânico entre os alunos, uma vez que nem todo mundo compartilha suas exóticas opiniões.
Por isso me recuso a dar aulas de manhã, e tenho que correr atrás de um atestado, no primeiro pronto socorro a recepcionista me diz que o atendimento está demorando duas horas, não parece irônico que num lugar chamado PRONTO SOCORRO as pessoas que estão debilitadas tenham que esperar tanto tempo? Ela me diz que um hospital próximo atende meu plano, e, quando chego lá, descubro que não atende, nem sequer uma informação correta ela consegue dar, foda-se se você está DOENTE, problema é seu se tem que ficar zanzando de um hospital para outro. Pois vou num terceiro que também não atende meu plano, e desisto do atestado, tenho uma crise de CHORO e vou andando para casa, devagar, aí sou assaltada por uma menina que deve ter uns 17 anos, claramente viciada, que me ameaça dizendo que tem uma faca e me obriga a dar dinheiro, “não quero machucar ninguém”, eu tinha certeza de que ela não tinha uma faca, e creio que consegui manter o controle, dei 16 reais a ela e depois tive outra crise de choro e tremi por causa do susto.
E é com tosse, a cabeça zunindo e dores no corpo que chego em casa pensando o quanto esse mundo nos adoece. Nunca a indiferença do “sistema” me parece tão cruel, todos esses pequenos eventos vão tornando o dia-a-dia insuportável, a situação vexatória do transporte público, do trânsito, da pobreza e miséria em toda esquina, obrigando seres humanos a tornarem-se pedintes, ou assaltantes, implorando a outros seres humanos que lhe deem qualquer coisa, e muitas vezes esses outros seres humanos reagem com indiferença, e em TODAS essas vezes é necessário ignorar o desespero estampado no rosto de quem pede, pra que seja possível prosseguir, é isso???
E me parece que a sociedade de um modo geral insiste em acreditar nesse sistema neo-liberal em que a fórmula “cada um por si” é a principal regra, enquanto cada um em sua própria vida padece de falta de solidariedade, de perspectiva, onde a única coisa que nos une são os problemas, como não adoecer?
A minha convicção agora é de que, se um ser humano cair estatelado no chão, muitos passarão reto, pois estamos nos tornando cada vez mais incapazes de estender a mão. Termino com uma frase de Will Eisner, que na verdade resume tudo o que tentei dizer:
“Quanto mais eu ando nas ruas, mais noto como são imperceptíveis as pessoas que passam por mim. Eu cresci aceitando isso como um fenômeno normal da vida nas grandes cidades.”
Malhando o Judas
Não sei se este blog está se transformando num relato de sala de aula, pois essa não é a intenção. Pra quem não sabe, o nome inicial deste espaço era “O que der na telha”, e o espírito continua sendo: uma ideia bateu na minha cachola, eu escrevo.
Por outro lado, falar sobre aquilo que vivencio em sala de aula me ajuda a manter a sanidade mental. Acredito que há certa redenção e alívio ao compartilharmos as coisas. Por isso, queridos leitores, lá vai mais um textinho metendo o pau na Educação:
Assumi umas aulas de Geografia, como eventual, pra duas turmas que não têm aula desde fevereiro (sim, pasmem!). Pra quem está pensando porque uma socióloga está metendo o bedelho onde não foi chamada, esclareço: estou fazendo Mestrado em Geografia, portanto, aceitei o risco, respaldada em disciplinas que me ofereceram um panorama geral do que é ensinar essa matéria.
Pois hoje tive que cobrir uma aula da professora titular, que graças a milagres que acontecem de vez em quando, está se aposentando. Ao longo do texto, explicarei porque estou malhando o Judas.
Visualizem uma sala de aula com cerca de 30 alunos, todos nos seus 14, 15 anos. Me olham sem qualquer interesse e sem esperança. Infelizmente, o olhar de alguns jovens não tem mais esperança. Explico que vou substituir a professora e pergunto onde pararam com a matéria. Eles tinham respondido algumas perguntas de um texto curto, sobre o processo de industrialização brasileiro, Era Vargas, CSN, etc. Para montar um diagnóstico, pergunto o que eles entenderam do texto até então. Nada. Não entenderam nada. Então vamos lá: explico linha por linha, palavra por palavra, tentando amarrar a interpretação com conteúdos de história, e de sociologia (matéria que leciono pra eles). A coisa não anda. Sonolentos, desinteressados, me passaram a trágica impressão de que não fazia diferença se fosse eu, o papa, o Lula ou o Pinóquio falando abobrinhas nos ouvidos deles.
Aí dou uma sacudida, provoco: por que copiar se não entendem? Qual a importância da Geografia, da industrialização, o que é INDÚSTRIA, meu deus do céu?!!! Vou, aos poucos, decodificando as coisas, tentando fazer aquela ladainha ter algum sentido. Há uma pequena reação. Desafiados, me disseram que a professora quase não explica, e que os faz copiarem as respostas no caderno. Respostas longuíssimas. Cópias, cópias, cópias. Somente cópias.
Será que alguém pode me explicar como é que pode existir um profissional tão irresponsável? Será que esse mesmo profissional tem a exata noção de que está assassinando intelectualmente uma geração inteira? Que está fazendo os alunos de bobos? Que está arrancando deles o desejo de saber? Que está banalizando o conhecimento, tornando-o inacessível, desnecessário? Como é que pode existir uma pessoa tão preguiçosa ao ponto de entrar na sala de aula todo santo dia para passar um volume massacrante de textos na lousa? E o pior, como é que essa pessoa pode sair impune?
Alguma coisa morre por dentro quando sentimos que algo que nos é caro foi pisoteado pelo outro, e que, neste caso, o outro curtirá sua aposentadoria como se nada tivesse acontecido e estamos conversados. Dentro do universo da educação, creio que não exista nada pior do que um professor fazer com que o brilho de curiosidade nos olhos dos alunos desapareça. E o que me consola minimamente é a minha convicção de que estou fazendo o possível para reacendê-lo, sem saber se terei algum sucesso.
Até quando?!!!
A aula tinha acabado. Classe barulhenta. Quando eu estava repondo minhas energias, me preparando para ir embora, uma aluna do terceiro ano entrou na sala, muito séria, dizendo que queria falar comigo. E o que ela disse foi mais ou menos isso:
- Sou nordestina. Os alunos da minha sala ficam “zuando” comigo, até já me desenharam na lousa. Acho que eles têm muito preconceito contra nordestinos e bolivianos. E os professores ajudam [contribuem] pra isso.
Eu, PROFESSORA, logicamente perguntei:
- Contribuem como?
- Outro dia a professora de Geografia falou que nós somos muito pobres, e hoje a senhora falou que as crianças nordestinas não conseguem aprender porque são desnutridas.
(O que eu disse foi: “em algumas regiões, principalmente onde existe a seca, algumas crianças que não têm o que comer, e que, por isso, são desnutridas, apresentam dificuldades de aprendizado, porque existe uma carência muito grande de proteínas).
Concordei com ela, e creio que sua observação foi muito importante pra mim. Porque realmente, por algum motivo que ainda estou investigando, a sociedade, de uma maneira geral, conserva a imagem de que só existe pobreza no nordeste, e que não existe nada de bom. E ela, com toda razão, se ofendeu, afinal eu estava falando de seu lugar de origem, de sua “casa”. Então eu disse a ela que realmente a gente costuma fazer isso, mas que as coisas boas existem, sim, como beleza natural, a cultura popular, etc. Prometi a ela que pensaria sobre isso, e que falaria com os alunos para pararem de disseminar o preconceito. Na verdade, eu já tinha tido uma “conversinha bem séria” com eles sobre isso, mas parece que é algo que temos que dizer todos os dias.
Isso me fez pensar em muitas coisas. A imagem negativa que nós, sociedade, construímos em relação ao nordeste é a mesma que construímos em relação às periferias das grandes cidades e à África. Na periferia só existe violência e pobreza, na África só existe miséria e AIDS. E assim, aos poucos, vamos estigmatizando pessoas, comunidades inteiras, impedindo que as pessoas enxerguem suas qualidades, valorizem suas riquezas. Vamos exterminando a possibilidade de sermos solidários, engessados pelo senso comum que não relativiza nada e torna tudo simplista e absoluto.
Devemos ter cuidado com o que falamos e analisar criticamente o que pensamos. Devemos rever esses conceitos que constroem abismos entre classes sociais, impossibilitando o diálogo e a troca. Pois viver em sociedade me parece ser uma eterna e titânica batalha para nos afirmarmos ao estigmatizarmos o outro. E, dessa forma, os problemas sociais que atingem a TODOS vão se aprofundando, sem que haja um esforço coletivo para encontrarmos soluções.
O rico contra o pobre, o pobre contra o rico, os professores contra o Estado, contra os alunos, os paulistanos contra os nordestinos, os brasileiros contra os bolivianos, os brancos contra os negros, os homens contra as mulheres, o Estado contra o povo, e assim cada um vai se fechando em seu próprio universo, tentando, o tempo todo, reafirmar sua verdade, achando que, para isso, é necessário anular a verdade do outro.
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