Grande satisfação
Enfrento, às segundas, um trânsito de enlouquecer às seis da tarde para dar apenas duas aulinhas numa Escola no Imirim. Pelo sacrifício que envolve deslocamento, gasto em condução e cansaço, ganho em torno de R$23,00, que, descontada a condução, transforma-se tristemente em R$ 18,40.
Mas faço com gosto. Pois as duas aulas são para Jovens e Adultos. A maioria é composta por homens e mulheres de 30 anos pra cima, pessoas ávidas pelo conhecimento, claro que com suas poucas exceções. Às vezes tenho a impressão de que nem piscam. Absorvem todas as sílabas, tudo o que é dito e escrito na lousa, com uma dedicação tão grande que coloca 90% dos alunos do Ensino Médio Regular no chinelo, em termos de interesse pelo conhecimento.
Estou com eles desde o início do ano. Desenvolvemos, mesmo com encontros que ocorrem somente uma vez por semana, uma afinidade e uma cumplicidade que fazem as aulas renderem muito. Por tudo isso, preparo cada uma com carinho. À parte de teorias sociológicas e marcos históricos que eles talvez não precisem dominar completamente, promovo discussões, debates, estimulo a escrita. Falo de política. Tento suprir, na medida do possível, uma lacuna imensa, pois a impressão que tenho é a de que essas pessoas tiveram que trabalhar, muitas desde crianças, sustentar uma família, sobreviver, sem que a voz e a devida atenção fossem dadas ao seu desenvolvimento humano. Sem que nada além da obrigação de trabalhar fosse dada, na verdade.
No início do semestre, perdi as duas salas, para um professor que tirou e ainda tira muitas licenças. Fiquei sinceramente espantada com a reação dos alunos, que fizeram uma verdadeira balbúrdia pra que eu voltasse. Me pediram para dar um jeito, para tentar trocar as aulas, e isso felizmente deu certo. E então retomo o trabalho do semestre passado, percebendo o quanto eles se sentem felizes e realizados ao debaterem, ao compreenderem com maior profundidade tudo aquilo que os assola, que os oprime. Em cada redação, circulo cuidadosamente os erros gramaticais e faço comentários. Em cada “matéria dada”, procuro ouvi-los e conduzi-los a uma percepção mais aguda da realidade, e não sei, verdadeiramente, o que cada um irá reter, o que cada um fará com o que tentei ensinar, não sei se o Ensino Médio para Jovens e Adultos os prepara melhor para o mercado de trabalho, ou para a vida. Creio que não. Pois em termos de conhecimentos científicos, a defasagem é muito grande, o que dificulta a apreensão dos códigos e do conteúdo exigido pelo “mundo”.
Mas isso não me faz doar menos, dialogar menos, caprichar menos. Pois é possível que o aprendizado seja exatamente essa relação honesta que se construiu espontaneamente entre a minha constante preocupação em realizar um trabalho bem feito e a dedicação extrema dos alunos. O que me faz afirmar, sem demagogia, que eu daria essas aulas de graça, se fosse preciso. Somente pela grande satisfação que percebo quando entro na sala de aula e eles me acolhem calorosamente. Quando faço uma brincadeira qualquer no meio da aula e eles se descontraem, bem humorados, depois de um longo dia de trabalho. Quando um deles finalmente aprende a acentuar as palavras, ou quando eles percebem o quanto já sabem, empiricamente, sobre determinado assunto. O quanto é extremamente necessário construir relações saudáveis entre seres humanos que ainda possuem esperança.
Lampejos
Quando eu era mais jovem, lá nos meus vinte anos, imaginava que, quando estivesse com trinta, já teria feito o Doutorado na Sorbonne, e que me especializaria em Sexualidade, ou Antropologia Sexual. Este é um assunto que sempre me fascinou, e eu tinha a inabalável convicção de que me dedicaria a isso pelo resto da minha vida. Eu também achava que, nesta idade, teria uma boa situação financeira, teria uma casa só minha, seria uma escritora conhecida, e não pensava em filhos.
Experimento me ver hoje, quase aos trinta, com aqueles olhos dos vinte. Hoje, dou aulas em 3 escolas Estaduais, corro de um lado para outro todos os dias e encaro uma profissão que tem muito mais dissabores do que compensações. Não tenho Doutorado, mas estou fazendo mestrado. E não é na área de Sexualidade, e sim de Geografia, Planejamento Urbano, Cidade. Não sou uma escritora conhecida, não tenho, ainda, uma casa só minha, e atualmente penso em ter filhos.
Não sinto falta de alguns planos que não se realizaram, creio que eles se modificaram, se adaptaram à minha realidade. Alguns eram inviáveis. Outros, por razões que nem sempre compreendo, ficam adormecidos dentro de mim, esperando que eu os desperte.
O mais importante dessa reflexão talvez seja o fato de que comecei a conhecer uma coisa chamada maturidade, que me fez entender que não há uma única maneira de ser e de sentir as coisas. Antes, eu sentia tudo em sua potência máxima. Antes, minha alma estava mergulhada num romantismo que me fazia perder os sentidos, às vezes, diante da vida, do mundo. Um romantismo que me fazia sangrar.
Minhas palavras sangravam. No meu universo, não havia meio termo. Não havia um caminho do meio onde eu pudesse fazer com que minhas dúvidas e angústias repousassem. Não havia nada além de uma nostalgia imensa por um passado ancestral e uma urgência em deglutir o presente, de forma embriagada, intensa e visceral. E tudo isso era, creio, mascarado por uma meiguice que hoje me parece realmente apenas uma máscara.
Eu não sou mais assim. Sinto de outro modo, talvez de maneira mais comedida. Só que, de vez em quando, principalmente quando estou distraída, sinto ainda alguns lampejos daquela intensidade, daquela urgência, daquela sede imensa de viver. Sinto um desejo de realização que me toma por inteiro e, apenas por alguns segundos, me transforma naquela jovem de vinte anos, pronta para lutar, para criar e transformar. Eu nunca hesitava em minhas lutas. Elas eram dantescas. Elas eram, na verdade, maiores do que eu. E por isso, principalmente, eu sofria.
Deixei de acreditar em muita coisa, principalmente no romantismo. Meus pés estão fincados no chão e, como acontece com todo mundo, quando temos que pagar nossas contas, os sonhos se dissipam.
Por outro lado, me sinto mais tranqüila, sorvendo com honestidade todas essas transformações, sem medo de assumir que amadureci em muitos aspectos.
Talvez o maior benefício que a maturidade nos oferece seja a possibilidade de escolhermos as nossas lutas. E, com isso, a liberdade absolutamente humana de hesitar.
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