LUAS CRUAS DE CARA NOVA!

Pessoal, estou mudando de lugar. Por favor, acessem a nova página do meu blog, não me abandonem!

http://luascruas.blogspot.com

 

Eis minha poesia preferida, de Cauê Lundi.

Explosão Demográfica

 

 Pétalas de vidro despedaçaram o fio da navalha

Aguda e incisiva

Que em outros corpos relutaria na teimosia dos

Quadrúpedes sem fala

Rompendo o menisco nupcial das vidas

 

 

Sensorial e nefasta

Que em outros corpos calaria na voz sombria

Das mortes,

Sentindo o corte profundo dos seus átrios

 

Imunda e solene

Que em outros corpos quebraria os ossos

Do ofício,

Colocando a matéria sobre o alaúde de

Ouro e lata,

Socando a terra com suas linhas

 

 

Menina e órfã

Tosca mina de confetes de carvão,

Espetada sob a luz difusa das mãos

Enraizadas,

Colocando sobre os pés e pulmões de fuligem

Do hospital- cemitério

 

 

Louca e virgem,

Que em outros corpos seria a flor das

Casas de Madame Mimi

Roída e consumida com a fumaça branda

Das altas rodas

Quebrada nos encantos das alianças

Partidas, da noite extinguida

 

 

Dinamite e grana,

Que em outros corpos deslizaria terra e

Inundaria vales

Com a mesma graça das bombas nos tetos

De Hiroshima,

Nos bares do ópio, na descarga dos cartéis

Amazônicos

 

 

Força e trincheira,

Que em outros corpos sufocaria as chibatas

Do anjo imperialista,

Defensor das terras alheias e canhão contra  a

“peste comuna

Sofrendo nos calcanhares essa sapatilha

De madeira trepadeira

 

 

Prosa e lágrimas,

Que em outros corpos entoaria o canto da

Poesia de Pablo Neruda,

Com suas garras de cobre e sal,

Cobrindo o mar de sonhos,

Para que a sombra dos olhos não apagassem

As pisadas de nossos corpos

Nem a lua convidasse as estrelas a se esconderem

No seu véu de majestade

 

 

Nua e pura,

Que em outros corpos fosse apenas corpos

Sem marcas

Longe da fúria das madames ocidentais

Vestida com a pele e a alma desses corpos,

No frenesi de suas embarcações santas

Que em outros corpos seria o odor universal

Dos corpos imaculados

Na cidade do homem sem corpos.

 

 

 

Viva o moralismo!!!

            Mulheres! Minhas queridas mulheres, reajam!!! Contra esse machismo que parece não ter fim, contra a coisificação do corpo feminino, da sexualidade feminina, contra a moralidade podre e hipócrita que faz um bando de machistas recalcados atacar uma estudante só porque ela usou uma minissaia. E daí?!!! Talvez o que mais me espanta não seja o fato em si, mas sim os comentários que meus ouvidos atônitos captaram por aí: “Ela deve ter aprontado alguma!” “Boa coisa não deve ser, ela provocou!” O fato de quase 700 pessoas ficarem absurdamente agitadas, animalizadas, hostis e agressivas diante de um par de pernas demonstra, no meu ponto de vista, algo que eu já havia observado, mas que simplesmente escancarou-se diante dessa situação: O MORALISMO ESTÁ A TODO VAPOR.

            E o moralismo é contra nós, mulheres, é claro.  Se você mostrar suas pernas, é uma puta. E, por ser uma puta, merece ser linchada, moral e fisicamente. Mas, para os machistas “espertinhos”, as mulheres que dançam AXÉ ou que desfilam no carnaval não são putas, porque aquilo é um trabalho. Se você assumir para si mesma a importância do seu orgasmo e exigi-lo de seu parceiro, é uma depravada. Se você é solteira, mas “fica” com vários homens, é uma vagabunda. Se você fica estressada com alguma coisa, é porque está com TPM (como se o ciclo menstrual fosse algo sujo, pecaminoso, medonho, e como se ficar estressado, no caso da mulher, fosse apenas uma condição biológica sem importância, e não um sentimento humano como qualquer outro). Se você está perturbada com alguma coisa, e seu humor não está tão bom, é porque precisa de um homem, enquanto que o homem mal humorado não precisa de uma mulher, o que significa, claramente, que o homem pode salvar a mulher de determinado estado de espírito, mas o contrário não se aplica a ele.

            Me parece um tanto quanto grave que algumas mulheres sejam coniventes com os homens que perturbaram a estudante, assinando embaixo dessa patifaria e, assim, perpetuando esses valores que só geram violência. Valores que só beneficiam os homens, em sua noção um tanto quanto distorcida e perigosa dos papéis sociais exercidos pelos gêneros, e por isso se sentem autorizados a exercer a violência doméstica, a pagar um salário menor para as mulheres que exercem a mesma função, a praticar a violência psicológica contra suas companheiras, começando pelas clássicas frases: “Você não vai usar esse decote!”, “você não vai sair à noite para farrear com suas amigas”, e culminando num relacionamento claramente desigual e cheio de sofrimentos, em que ambos acabam aplaudindo uma demonstração pública de hostilidade a uma mulher que simplesmente mostrou as pernas, porque, para ambos, trata-se de uma puta.

            Mulheres, acordem! Antes que esse moralismo volte-se contra vocês mesmas, contra suas amigas, filhas. E vocês, machistas, cresçam! De uma vez por todas!!!

             

           

Manto

Reluz por um segundo

E finca na eternidade

Ser eterno como se

O manto pudesse

Cobrir a fome

 

Ao longo do percurso

Sinto a voz da agonia

O que me percorre

E me minimiza

Senão o medo

A sede

Senão a fonte

O grito

E de esperança eu morreria

Se a flor da ingenuidade sangrasse

Se a marca do teu gemido nu

Germinasse em mim

A orgia do espírito

Meu e teu

Teu

Todo

Tudo

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